QUE JESUS ME DÊ...JESUS

QUE JESUS ME DÊ...JESUS

Que Jesus me dê... Jesus

 

 


O padre aproximou-se bem devagar, para ver quem estava de trás do altar. Que fazia aquela pequenina ali, de joelhos e com lágrimas nos olhos?
O Orfanato "Maria de Nazaré", das Filhas da Caridade, era uma casinha de aspecto acolhedor. Pobre, mas limpa e bem ordenada, a residência chamava a atenção dos transeuntes da Rua das Acácias. Aliás, o nome da rua condizia com seu aspecto, pois toda a sua extensão era adornada por estas frondosas árvores. Na primavera, elas floresciam, produzindo abundantes cachos e deixando um tapete dourado no chão, à medida que as frágeis florezinhas eram derrubadas pelo vento.

As dedicadas irmãs responsáveis pelo orfanato também gostavam de flores. E o jardim da casa era digno de estar naquela rua tão alegre e bonita, pois havia margaridas, lírios, rosas, jasmins e violetas em quantidade. Além das borboletas, abelhas e colibris, que vinham deliciar-se com o néctar das flores, quiçá mais saboroso pela graça e louçania do ambiente.

Havia na casa 30 crianças órfãs. Porém, se elas não possuíam os pais verdadeiros, todavia tinham muitas "mães", pois nenhuma das freiras media esforços para ajudar as pobres criaturinhas abandonadas, às quais cuidavam com todo amor e
desvelo.

Conhecendo a fama da instituição, era muito comum algum casal idôneo querer adotar uma criança. As boas religiosas rezavam muito, então, pela escolhida, pedindo à Providência para guiá-la no caminho do bem. E não era raro, também, aparecerem bebês abandonados à porta do orfanato.

Foi o que se passou em uma fria manhã de outono. Ao sair para buscar o pão, a servente da cozinha viu um cobertorzinho mexendo- se na soleira da porta, de onde provinham alguns fracos gemidos. Pegando o singular objeto, sentiu umas mãozinhas geladas e úmidas sob as suas e, ao abrir o tecido, encontrou um bebê de carinha oriental, chorando baixinho. Era menina e tão pequenina que cabia em suas duas mãos.

Levando a pobrezinha para dentro, a aqueceu, colocando-lhe roupinhas limpas e secas, e tentou dar-lhe algo de comer. A menina estava quase morta pelo frio e pela umidade, e mal conseguia mover os lábios. Cuidada na enfermaria, o carinho e o zelo da irmã enfermeira lhe foram mais salutares que os próprios medicamentos. Em poucos dias a pequena já abria os olhinhos puxados, tomava mamadeira e conseguia esboçar um sorriso.


Nenhuma das freiras media esforços
para ajudar as pobres
criaturinhas abandonadas
Passados os meses, havia crescido bastante e se desenvolvia como uma criança normal. Não se sabia, porém, de onde havia vindo, quem era sua família, nem mesmo se era chinesa, japonesa ou filipina, pois naquela cidadezinha não havia famílias orientais.

Os anos foram se passando e a menina, batizada com o nome de Talita - que significa "menina" e foi o nome dado por Jesus à filha de Jairo, ao ressuscitá-la -, crescia alegre e vivaz. Contudo, não tinha muita facilidade para aprender as coisas. Era muito prestativa e piedosa, auxiliava às crianças menores, punha-se à disposição das freiras para ajudá- las, era obediente e disciplinada, sempre estava na capela colocando flores para Jesus e para a Virgem ou rezando, mas nada conseguia aprender
além da "Ave Maria" e do "Pai Nosso".

Chegada a época da Primeira Comunhão, passou a frequentar a catequese ministrada pelo capelão do orfanato, o padre Vicente. Talita gostava de participar da Missa, cantava como um anjo, e sonhava poder receber Jesus em seu coração. Entretanto, quando o padre lhe fazia as perguntas do catecismo, não se lembrava do que devia responder. Apesar de perceber sua tristeza, o bom sacerdote se viu na contingência de fazê-la cursar mais um ano de catecismo. Quiçá com o tempo amadurecesse um pouco mais e se preparasse melhor para o augusto momento.

Quando soube desta notícia, Talita mudou completamente seu comportamento. Em vez de brincar com as outras crianças na hora do recreio, fugia para a capela e se punha a rezar. Sobretudo gostava de estar junto ao Santíssimo, exposto às quintas-feiras.

Num desses dias, o padre Vicente entrou na capela e escutou suaves soluços de uma vozinha infantil. Notando uma cabecinha saliente no presbitério, o padre aproximou-se bem devagar, para ver quem estava detrás do altar. Era Talita. Que fazia aquela pequenina ali, de joelhos e com lágrimas nos olhos? A menina, com as mãozinhas postas, olhava fixamente para o Santíssimo Sacramento, chorava e rezava baixinho.

O sacerdote ajoelhou-se a seu lado e perguntou:

Que fazes aí, Talita?

- Estou visitando o Santíssimo Sacramento.


Ao sair, a servente viu um
cobertorzinho mexendo-se na
soleira da porta
O padre ficou perplexo, pois a menina era incapaz de responder-lhe isso nas aulas de catecismo... Para prová-la, indagou mais uma vez:

- E o que é o Santíssimo Sacramento?

- Ora essa... é Jesus! - respondeu ela, estranhada com tal pergunta.

- E o que pedes a Jesus? - insistiu ele.

- Peço a Jesus que me dê... Jesus!

De fato, dos inocentes é o Reino dos Céus! Talita podia não conseguir responder às intricadas perguntas da doutrina, porém seu coração não a enganava: ali estava Jesus, a Quem ela tanto desejava receber! Desta vez, os olhos do padre Vicente ficaram marejados... Como podia ele negar a comunhão a uma alma tão pura?

Chegado o esperado dia, as freiras vestiram as crianças pobremente, mas com tanta dignidade e modéstia, que mais pareciam pequenos príncipes e princesas. Talita não cabia em si de contente! Recolhida, não falava muito, no entanto, não podia deixar de sorrir. Terminada a inesquecível cerimônia, tiveram um lanche especial e a menina, depois de estar com todos, fugiu outra vez para a capela. Queria agradecer a Jesus por haver vindo visitar seu coração.

Ela ainda viveu muitos anos no orfanato, dando sempre bons exemplos de piedade e dedicação para com todos, fruto das visitas de seu querido Jesus.